Numa altura em que o cinema de terror não passa por momentos particularmente felizes, é de louvar a chegada de um título como
que, sem deslumbrar, cumpre os requisitos mínimos do género, e ainda nos deixa à beira de um ataque de nervos (no bom, mas também no mau sentido, já lá iremos...)
Depois de uma interessante sequência de créditos iniciais, temos um breve vislumbre de uma imagem labiríntica, a recordar o tenebroso jardim de
The Shining, sentimento que o filme prolonga imediatamente na primeira cena, na qual vemos um carro isolado no meio das montanhas. Lá dentro, um casal (Luke Wilson e Kate Beckinsale). Não há uma criança no banco de trás, mas ambos são assombrados pela memória do seu filho, morto num acidente doméstico do qual os pais não conseguiram recuperar, e que terá levado a sua relação ao declínio. Não sabemos de mais pormenores, nem precisamos, uma vez que os principais dados estão lançados: o sofrimento e a dor causada pela morte da criança, e a degradação que a partir daí surgiu na relação entre ambos, resultado das diferentes formas que ambos encontraram para lidar com a morte do rapaz. Voltando à viagem: é noite cerrada, e ambos eles estão perdidos na viagem, até que uma avaria no automóvel os leva a ter de passar a noite num Motel algures numa paisagem montanhosa isolada do resto do mundo. O bizarro gerente indica-os a um quarto, e é lá dentro que o verdadeiro terror irá começar.

Confesso-me particularmente surpreendido por muitos pontos de
Vacancy. Em primeiro lugar, porque se recusa logo à partida por cair nos lugares comuns da generalidade do moderno cinema de horror, onde parece só haver lugar para jovens de corpos esculturais, e a abordagem visual pouco difere do que se faz nos videoclips da MTV. Aqui, temos desde logo uma dupla de actores que, embora não geniais, são sólidos o suficiente para nos fazer sentir próximos das personagens que defendem. E depois, porque há uma preocupação clara do realizador Nimród Antal em criar medo e tensão sem recurso exclusivo a cortes rápidos e câmaras em constante sobressalto. Aliás, as referência iniciais a
The Shining acabam por ser substituídas por uma onda mais Carpenter, que faz recordar e muito
Halloween – não na qualidade global do filme em sí, mas por exemplo no cuidado com as composições em formato largo, aproveitando em algumas ocasiões da melhor maneira os cantos da imagem para daí nos oferecer alguns sustos valentes. E no fundo é mesmo isso que é de louvar. Confesso que nos últimos anos poucas vezes me senti tão sobressaltado e perturbado por uma obra cinematográfica como nos primeiros 30 ou 40 minutos de
Vacancy. Há ali material mesmo perturbador, especialmente em toda a cena em que os nossos protagonistas descobrem que algo de realmente estranho se passa naquele lugar.
Por tudo isso, é uma pena que se sinta no final que tudo é resolvido à pressa e, diria mesmo, não da melhor forma. Não irei aqui revelar pormenores específicos sobre a narrativa, mas parece-me que a sua conclusão deixa tanto a desejar que inclusivé acaba por fazer tudo o resto descer um pequeno patamar. Mas não o suficiente para nos fazer esquecer tudo o que ficou para trás, e aposto que os leitores que já tiveram oportunidade de ver o filme concordarão comigo que, quando resulta,
Vacancy resulta muito bem. Uma surpresa de 2007 que merece ser redescoberta em casa.