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Domingo, Novembro 01, 2009

O FANTASMA DO PARAÍSO (Phantom of the Paradise) - 1974


Mais do que um thriller ou um musical, Phantom of the Paradise é um filme que não só marca muito do espírito da sua época, como terá confirmado na devida altura, se quisermos, Brian De Palma como um dos mais transgressores cineastas da sua geração. Pegando em elementos de Fausto e de Fantasma da Ópera, De Palma criou (com a ajuda do mítico compositor Paul Williams, também um dos actores principais) uma espécie de ópera-rock cinematográfica sobre um compositor (magnífico William Finley, presença habitual nos filmes do realizador, aqui com a sua participação mais marcante) que vê a sua obra-prima destruída pelas mãos de um produtor musical sem escrúpulos (Williams) – e onde os paralelismos com as incidencias da indústria cinematográfica e a carreira do realizador, anterior e posterior, não são meras coincidências.

Phantom of the Paradise é um filme quase operático, repleto de exageros e excentricidades que hoje nunca conseguiriam ver a luz do dia. Que de todo esse festim de excessos se consiga tirar verdadeiro sumo cinematográfico, eis o milagre incompreensível desta obra, e mais uma prova do talento do seu autor. Repleto do humor ácido que vem predominando na sua obra, nomeadamente nessa fase inicial, De Palma consegue momentos de deliciosa sátira à indústria do espectáculo e, consequentemente, um filme de uma actualidade impressionante, onde a obsessão com a beleza e a fama descartável que contamina os media e o entretenimento são temas centrais, disfarçados por baixo de todo o absurdo. Tal como nos melhores De Palma, o que se destaca verdadeiramente é o seu magnífico sentido visual, e a capacidade para criar maravilhosas sequências, explorando sempre os limites estéticos do cinema, mantendo-os ao serviço da história de forma constantemente provocatória e com resultados tão brilhantemente bizarros, que fazem com que a beleza da então estreante (e favorita aqui da casa) Jessica Harper possa conviver naturalmente com a composição hilariante de Gerrit Graham como Beef. O filme ideial para a época de Halloween, digo eu.



João Paulo Costa

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Take - Cinema Magazine


Informo já com muito atraso, mas sempre a tempo.

João Paulo Costa

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Sábado, Setembro 26, 2009

Actualizações

Após uma longa ausência, que entre outras coisas marcou uma nova etapa na vida profissional, e também um caso sério de preguicite aguda, irei aos poucos tentar reavivar o CinePt, sem fazer para já grandes promessas, mas para os leitores que ainda visitem este espaço à procura de novidades, tentarei pelo menos ir dando sinais de vida.


Entretanto, desde a última actualização, já saiu um novo número da Take (correspondente aos meses de Agosto e Setembro), onde o destaque foi para Johnny Depp e para o excelente Public Enemies, de Michael Mann, e eu comecei a escrever para a revista Tribuna Douro, onde tenho uma página mensal dedicada ao cinema. Para os interessados, eis o site onde poderão encontrar informações sobre a publicação, embora este não se encontre particularmente actualizado.

Ah, e já viram o novo Tarantino? Então estão à espera de quê?!

João Paulo Costa

Terça-feira, Julho 21, 2009

Take - Cinema Magazine

Com Quentin Tarantino na capa e um especial dedicado a uma das mais esperadas estreias deste Verão por estas bandas (Inglourious Basterds, pois claro!), o número 17 da Take continua a crescer em ambição, em conteúdos e em qualidade. Além das habituais rubricas, há ainda entrevistas com a malta do divertido The Hangover e, mais do que isso, com o excelente James Gray a propósito do seu mais recente, e belíssimo filme, Two Lovers. Já sabem, tudo isto e muito mais à distância de um simples click.

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Quarta-feira, Julho 08, 2009

O MOTEL (Vacancy)

Numa altura em que o cinema de terror não passa por momentos particularmente felizes, é de louvar a chegada de um título como Vacancy que, sem deslumbrar, cumpre os requisitos mínimos do género, e ainda nos deixa à beira de um ataque de nervos (no bom, mas também no mau sentido, já lá iremos...)

Depois de uma interessante sequência de créditos iniciais, temos um breve vislumbre de uma imagem labiríntica, a recordar o tenebroso jardim de The Shining, sentimento que o filme prolonga imediatamente na primeira cena, na qual vemos um carro isolado no meio das montanhas. Lá dentro, um casal (Luke Wilson e Kate Beckinsale). Não há uma criança no banco de trás, mas ambos são assombrados pela memória do seu filho, morto num acidente doméstico do qual os pais não conseguiram recuperar, e que terá levado a sua relação ao declínio. Não sabemos de mais pormenores, nem precisamos, uma vez que os principais dados estão lançados: o sofrimento e a dor causada pela morte da criança, e a degradação que a partir daí surgiu na relação entre ambos, resultado das diferentes formas que ambos encontraram para lidar com a morte do rapaz. Voltando à viagem: é noite cerrada, e ambos eles estão perdidos na viagem, até que uma avaria no automóvel os leva a ter de passar a noite num Motel algures numa paisagem montanhosa isolada do resto do mundo. O bizarro gerente indica-os a um quarto, e é lá dentro que o verdadeiro terror irá começar.

Confesso-me particularmente surpreendido por muitos pontos de Vacancy. Em primeiro lugar, porque se recusa logo à partida por cair nos lugares comuns da generalidade do moderno cinema de horror, onde parece só haver lugar para jovens de corpos esculturais, e a abordagem visual pouco difere do que se faz nos videoclips da MTV. Aqui, temos desde logo uma dupla de actores que, embora não geniais, são sólidos o suficiente para nos fazer sentir próximos das personagens que defendem. E depois, porque há uma preocupação clara do realizador Nimród Antal em criar medo e tensão sem recurso exclusivo a cortes rápidos e câmaras em constante sobressalto. Aliás, as referência iniciais a The Shining acabam por ser substituídas por uma onda mais Carpenter, que faz recordar e muito Halloween – não na qualidade global do filme em sí, mas por exemplo no cuidado com as composições em formato largo, aproveitando em algumas ocasiões da melhor maneira os cantos da imagem para daí nos oferecer alguns sustos valentes. E no fundo é mesmo isso que é de louvar. Confesso que nos últimos anos poucas vezes me senti tão sobressaltado e perturbado por uma obra cinematográfica como nos primeiros 30 ou 40 minutos de Vacancy. Há ali material mesmo perturbador, especialmente em toda a cena em que os nossos protagonistas descobrem que algo de realmente estranho se passa naquele lugar.

Por tudo isso, é uma pena que se sinta no final que tudo é resolvido à pressa e, diria mesmo, não da melhor forma. Não irei aqui revelar pormenores específicos sobre a narrativa, mas parece-me que a sua conclusão deixa tanto a desejar que inclusivé acaba por fazer tudo o resto descer um pequeno patamar. Mas não o suficiente para nos fazer esquecer tudo o que ficou para trás, e aposto que os leitores que já tiveram oportunidade de ver o filme concordarão comigo que, quando resulta, Vacancy resulta muito bem. Uma surpresa de 2007 que merece ser redescoberta em casa.




João Paulo Costa

Segunda-feira, Julho 06, 2009

A RESSACA (The Hangover)

Realização: Todd Phillips
Argumento: Jon Lucas & Scott Moore
Elenco: Bradley Cooper, Ed Helmes, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Ken Jeong, Heather Graham, Mike Epps, Mike Tyson

Todos os anos, por esta altura, entre as inúmeras estreias de Verão carregadas de grandes produções e animações, há também lugar para a comédia ligeira desprovida de outras pretensões que não as de tentar arrancar o maior número de gargalhadas por espectador. The Hangover consegue-o sem problemas de maior, e o seu sucesso gigantesco é, por esta altura, mais do que compreensível, seguindo uma receita com tudo para dar certo: o realizador Todd Phillips, já com um currículo de peso na comédia javarda, dirige sem medos um argumento recheado de gags sem grandes papas na língua ou problemas com o políticamente correcto e, sobretudo, um grupo de actores não muito conhecidos mas consistentemente inspirados: Ed Helms (membro regular da versão americana de The Office) é bastante divertido, assim como Bradley Cooper que consegue entrar no espírito sem grandes problemas, mas são o comediante Zach Galifianakis (vai tornar-se numa estrela) e Ken Jeong quem rouba o espectáculo. Ah, e Mike Tyson... e com piada (?!). Tem problemas? Certamente, porque nem sempre acerta no alvo, porque Heather Graham é ignorada num papel completamente acessório (e como eu gosto da Rollergirl) e porque se sente claramente que o argumento tem de ser despachado quando a duração se aproxima do final e se tem de arranjar conclusão para a história deste grupo de amigos em Las Vegas para uma despedida de solteiro que só não é memorável porque ninguém se consegue lembrar do que aconteceu. Mas isso no final pouco importa quando as gargalhadas surgem em grande número. Ninguém espera mais do que isso quando entra na sala.



João Paulo Costa

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Sexta-feira, Julho 03, 2009

SESSÃO DUPLA

HIGH NOON / MY DARLING CLEMENTINE

Há algo de altamente fascinante do ponto de vista pessoal, quando vejo um western clássico (entenda-se como tal, as produções americanas da idade de ouro dos estúdios) rodado a preto e branco, por oposição ao mais espalhafatoso Technicolor (e seus derivados) da época. Tendo a preferir, creio eu, o jogo de contrastes entre o preto e o branco, e os tons de cinzento intermédios, como forma de ilustrar as dualidades e a complexidade características da maior parte das personagens que povoam essas películas. E os casos de High Noon e My Darling Clementine voltam a fazer-me pender para essa opção, e é uma pena que com a implantação da cor como elemento ilustrativo mais comum, se tenha perdido um pouco o hábito de rodar westerns sem cor. É, repito, apenas uma tendência preferencial, e basta recordar por exemplo um Johnny Guitar para descobrir uma obra-prima situada no Velho Oeste com a cor como elemento fundamental para nos envolver na sua trama, com efeitos gloriosamente surreais. Mas creio que o preto-e-branco é mais eficaz como forma de conferir um realismo sujo às paisagens desérticas, e funcionava bastante melhor contra os cenários artificiais de estúdio da maior parte dos filmes.

Enfim, tirando esse assunto do caminho, falemos sobre estas obras de Zinnemann e Ford, que curiosamente partilham pontos em comum. Sejam elas o desencanto com que se olham os mitos do velho oeste, seja na forma como utilizam personagens femininas para amplificarem conflitos entre protagonistas, ou como se cria tensão entre personagens do mesmo lado da barricada e com isso se tornam excelentes documentos sobre a psique masculina . Com efeito, High Noon, que constrói a sua narrativa quase em tempo real - um xerife acabado de casar com uma bela mulher, planeia retirar-se quando descobre que o homem que mandou executar há 5 anos atrás por homicídio, se encontra livre e a caminho da sua cidade para um ajuste de contas - é um belo espécime de gradual desenvolvimento de personagens. Gary Cooper é o xerife em questão, e se à partida, até pela sua posição como a cara da justiça, nos parece um herói pleno de virtudes, aos poucos vamos percebendo que, tal como os vilões que juraram vingar-se, Cooper é também ele um homem incapaz de virar as costas à violência, mesmo pelo amor da sua nova mulher, uma Grace Kelly lindíssima como sempre, mas vista pela lente de Zinnemann como um anjo sem grande interesse (pelo menos quase até final). Em contraste com a beleza loira angelical de Kelly, temos Katy Jurado como uma mexicana e ex-amante de Cooper e do homem que este prendeu, como a única capaz de perceber a natureza violenta das persoangens masculinas. Jurado é também a actual amante de Lloyd Bridges, o xerife adjunto desencantado com Cooper por este não o ter nomeado xerife após a sua ausência, e por ser ainda tratado por todos como um miúdo. O mais interessante é não apenas a forma como vamos percebendo que as personagens de Cooper e Bridges não são o que pensam ser (e chega a ser tocante perceber que o xerife não tem inclusivamente quem confie em si ou esteja disposto a ajudá-lo a defender a cidade pela última vez), mas também como é Jurado que nos vai informando disso mesmo. Depois, narrativamente, a construção é bastante interessante, com um suspense em crescendo (e o tempo é aqui muitíssimo bem explorado) até ao momento em que o vilão chega no comboio das 12, e a encenação do duelo final pelas ruas desertas é uma delícia.

Em My Darling Clementine, apanhamos o mítico Wyatt Earp (Henry Fonda) como recém nomeado xerife de Tombstone para vingar a morte do seu irmão mais novo às mãos de ladrões de gado locais. No arrogante Doc Holliday (Victor Mature), encontramos primeiro um opositor, e depois um aliado, sempre dado aos copos e propenso a sacar da arma. Doc mantém uma relação carnal com Chihuahua (Linda Darnell), uma prostituta local, mas a chegada à cidade de Clementine (Cathy Downs), um amor do passado, desperta paixões antigas, e conquista também a atenção de Earp. Tal como Grace Kelly em High Noon, Clementine acaba por se revelar uma das menos interessantes personagens do enredo, sendo vista como um anjo puro num mundo sujo e desonesto, mas que acaba por fazer sobressair o lado mais negro, das personagens masculinas, neste caso de Doc. Mas My Darling Clementine é também um dos mais valiosos testamentos da grande capacidade de Ford em sacar sempre os melhores planos de todas as cenas, sejam elas nos grandes momentos de acção ou as belas paisagens do deserto, ou momentos mais íntimos nos quais as personagens quase se despem diante das câmaras. E, num caso e no outro, o preto e branco acaba por manter a noção épica de espectáculo, e conseguir também uma enorme proximidade às personagens, fazendo o melhor uso do jogo entre luz e sombras. Deixo alguns exemplos do título de Ford. Magnífico.




















João Paulo Costa

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Segunda-feira, Junho 22, 2009

Take - Cinema Magazine

É sob o signo da saga Terminator que nos chega mais uma edição da Take - Cinema Magazine, e estou em condições de dizer que é uma das mais completas que alguma vez produzimos. Desde entrevistas com personalidades do cinema nacional e internacional, a uma muito completa viagem até Cannes, passando pelas rúbricas habituais, a Take continua a crescer, com a ajuda de novos e excelente colaboradores.

João Paulo Costa

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Domingo, Junho 21, 2009

DEIXA-ME ENTRAR (Låt den rätte komma in)

Realização: Tomas Alfredson
Argumento: John Ajvide Lindqvist, baseado no seu romance
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar

Numa altura em que os vampiros e seus derivados parecem estar de volta em força ao cinema e à televisão (Twilight, True Blood...), o sueco Tomas Alfredson não quis ficar para trás, e apresentou-nos a sua própria visão do mito. O resultado é um filme perturbador, onde os condes da Transilvânia dão lugar a crianças de 12 anos de inocência ainda não totalmente perdida. Sem ser um exemplo de absoluta perfeição cinematográfica, Deixa-me Entrar é um trabalho bastante sóbrio, que utiliza os dispositivos fantásticos e a temática do vampirismo para falar sobre outros temas – como, de resto, acontece com os melhores títulos do género. No jovem Oskar, um rapaz filho de pais divorciados, alienado dos colegas e fácil alvo de violência na escola, vemos espelhados muitos dos problemas sociais dos jovens da sua idade: a dificuldade na ligação com o mundo, o escapismo. E em Eli, a sua nova vizinha que só costuma sair de casa à noite, Oskar encontra alguém com quem pode identificar a sua diferença. Obedecendo de forma muito particular às regras do género, Alfredson oferece-nos um filme ao mesmo tempo sinistro e poético, desconfortável e perturbador. Peca sobretudo quando se desprende da história dos dois jovens e tenta seguir outros caminhos (uma cena gore envolvendo um ataque de gatos, por exemplo, era perfeitamente dispensável), mas quando se centra apenas em Eli e Oskar, mantendo de lado a preocupação com os sustos, e deixando estas personagens desenvolverem a sua relação tão comovente, Deixa-me Entrar consegue ser excelente. E aqueles momentos finais, tão doentiamente encantadores, são dignos de permanecer entre os melhores do ano. Para os mais impressionáveis, fica no entanto o aviso: algumas das cenas não serão certamente muito bonitas de se ver...



Este comentário foi originalmente publicado no Take a Break



João Paulo Costa

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Sexta-feira, Junho 05, 2009