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Segunda-feira, Julho 06, 2009

A RESSACA (The Hangover)

Realização: Todd Phillips
Argumento: Jon Lucas & Scott Moore
Elenco: Bradley Cooper, Ed Helmes, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Ken Jeong, Heather Graham, Mike Epps, Mike Tyson

Todos os anos, por esta altura, entre as inúmeras estreias de Verão carregadas de grandes produções e animações, há também lugar para a comédia ligeira desprovida de outras pretensões que não as de tentar arrancar o maior número de gargalhadas por espectador. The Hangover consegue-o sem problemas de maior, e o seu sucesso gigantesco é, por esta altura, mais do que compreensível, seguindo uma receita com tudo para dar certo: o realizador Todd Phillips, já com um currículo de peso na comédia javarda, dirige sem medos um argumento recheado de gags sem grandes papas na língua ou problemas com o políticamente correcto e, sobretudo, um grupo de actores não muito conhecidos mas consistentemente inspirados: Ed Helms (membro regular da versão americana de The Office) é bastante divertido, assim como Bradley Cooper que consegue entrar no espírito sem grandes problemas, mas são o comediante Zach Galifianakis (vai tornar-se numa estrela) e Ken Jeong quem rouba o espectáculo. Ah, e Mike Tyson... e com piada (?!). Tem problemas? Certamente, porque nem sempre acerta no alvo, porque Heather Graham é ignorada num papel completamente acessório (e como eu gosto da Rollergirl) e porque se sente claramente que o argumento tem de ser despachado quando a duração se aproxima do final e se tem de arranjar conclusão para a história deste grupo de amigos em Las Vegas para uma despedida de solteiro que só não é memorável porque ninguém se consegue lembrar do que aconteceu. Mas isso no final pouco importa quando as gargalhadas surgem em grande número. Ninguém espera mais do que isso quando entra na sala.



João Paulo Costa

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Sexta-feira, Julho 03, 2009

SESSÃO DUPLA

HIGH NOON / MY DARLING CLEMENTINE

Há algo de altamente fascinante do ponto de vista pessoal, quando vejo um western clássico (entenda-se como tal, as produções americanas da idade de ouro dos estúdios) rodado a preto e branco, por oposição ao mais espalhafatoso Technicolor (e seus derivados) da época. Tendo a preferir, creio eu, o jogo de contrastes entre o preto e o branco, e os tons de cinzento intermédios, como forma de ilustrar as dualidades e a complexidade características da maior parte das personagens que povoam essas películas. E os casos de High Noon e My Darling Clementine voltam a fazer-me pender para essa opção, e é uma pena que com a implantação da cor como elemento ilustrativo mais comum, se tenha perdido um pouco o hábito de rodar westerns sem cor. É, repito, apenas uma tendência preferencial, e basta recordar por exemplo um Johnny Guitar para descobrir uma obra-prima situada no Velho Oeste com a cor como elemento fundamental para nos envolver na sua trama, com efeitos gloriosamente surreais. Mas creio que o preto-e-branco é mais eficaz como forma de conferir um realismo sujo às paisagens desérticas, e funcionava bastante melhor contra os cenários artificiais de estúdio da maior parte dos filmes.

Enfim, tirando esse assunto do caminho, falemos sobre estas obras de Zinnemann e Ford, que curiosamente partilham pontos em comum. Sejam elas o desencanto com que se olham os mitos do velho oeste, seja na forma como utilizam personagens femininas para amplificarem conflitos entre protagonistas, ou como se cria tensão entre personagens do mesmo lado da barricada e com isso se tornam excelentes documentos sobre a psique masculina . Com efeito, High Noon, que constrói a sua narrativa quase em tempo real - um xerife acabado de casar com uma bela mulher, planeia retirar-se quando descobre que o homem que mandou executar há 5 anos atrás por homicídio, se encontra livre e a caminho da sua cidade para um ajuste de contas - é um belo espécime de gradual desenvolvimento de personagens. Gary Cooper é o xerife em questão, e se à partida, até pela sua posição como a cara da justiça, nos parece um herói pleno de virtudes, aos poucos vamos percebendo que, tal como os vilões que juraram vingar-se, Cooper é também ele um homem incapaz de virar as costas à violência, mesmo pelo amor da sua nova mulher, uma Grace Kelly lindíssima como sempre, mas vista pela lente de Zinnemann como um anjo sem grande interesse (pelo menos quase até final). Em contraste com a beleza loira angelical de Kelly, temos Katy Jurado como uma mexicana e ex-amante de Cooper e do homem que este prendeu, como a única capaz de perceber a natureza violenta das persoangens masculinas. Jurado é também a actual amante de Lloyd Bridges, o xerife adjunto desencantado com Cooper por este não o ter nomeado xerife após a sua ausência, e por ser ainda tratado por todos como um miúdo. O mais interessante é não apenas a forma como vamos percebendo que as personagens de Cooper e Bridges não são o que pensam ser (e chega a ser tocante perceber que o xerife não tem inclusivamente quem confie em si ou esteja disposto a ajudá-lo a defender a cidade pela última vez), mas também como é Jurado que nos vai informando disso mesmo. Depois, narrativamente, a construção é bastante interessante, com um suspense em crescendo (e o tempo é aqui muitíssimo bem explorado) até ao momento em que o vilão chega no comboio das 12, e a encenação do duelo final pelas ruas desertas é uma delícia.

Em My Darling Clementine, apanhamos o mítico Wyatt Earp (Henry Fonda) como recém nomeado xerife de Tombstone para vingar a morte do seu irmão mais novo às mãos de ladrões de gado locais. No arrogante Doc Holliday (Victor Mature), encontramos primeiro um opositor, e depois um aliado, sempre dado aos copos e propenso a sacar da arma. Doc mantém uma relação carnal com Chihuahua (Linda Darnell), uma prostituta local, mas a chegada à cidade de Clementine (Cathy Downs), um amor do passado, desperta paixões antigas, e conquista também a atenção de Earp. Tal como Grace Kelly em High Noon, Clementine acaba por se revelar uma das menos interessantes personagens do enredo, sendo vista como um anjo puro num mundo sujo e desonesto, mas que acaba por fazer sobressair o lado mais negro, das personagens masculinas, neste caso de Doc. Mas My Darling Clementine é também um dos mais valiosos testamentos da grande capacidade de Ford em sacar sempre os melhores planos de todas as cenas, sejam elas nos grandes momentos de acção ou as belas paisagens do deserto, ou momentos mais íntimos nos quais as personagens quase se despem diante das câmaras. E, num caso e no outro, o preto e branco acaba por manter a noção épica de espectáculo, e conseguir também uma enorme proximidade às personagens, fazendo o melhor uso do jogo entre luz e sombras. Deixo alguns exemplos do título de Ford. Magnífico.




















João Paulo Costa

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Segunda-feira, Junho 22, 2009

Take - Cinema Magazine

É sob o signo da saga Terminator que nos chega mais uma edição da Take - Cinema Magazine, e estou em condições de dizer que é uma das mais completas que alguma vez produzimos. Desde entrevistas com personalidades do cinema nacional e internacional, a uma muito completa viagem até Cannes, passando pelas rúbricas habituais, a Take continua a crescer, com a ajuda de novos e excelente colaboradores.

João Paulo Costa

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Domingo, Junho 21, 2009

DEIXA-ME ENTRAR (Låt den rätte komma in)

Realização: Tomas Alfredson
Argumento: John Ajvide Lindqvist, baseado no seu romance
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar

Numa altura em que os vampiros e seus derivados parecem estar de volta em força ao cinema e à televisão (Twilight, True Blood...), o sueco Tomas Alfredson não quis ficar para trás, e apresentou-nos a sua própria visão do mito. O resultado é um filme perturbador, onde os condes da Transilvânia dão lugar a crianças de 12 anos de inocência ainda não totalmente perdida. Sem ser um exemplo de absoluta perfeição cinematográfica, Deixa-me Entrar é um trabalho bastante sóbrio, que utiliza os dispositivos fantásticos e a temática do vampirismo para falar sobre outros temas – como, de resto, acontece com os melhores títulos do género. No jovem Oskar, um rapaz filho de pais divorciados, alienado dos colegas e fácil alvo de violência na escola, vemos espelhados muitos dos problemas sociais dos jovens da sua idade: a dificuldade na ligação com o mundo, o escapismo. E em Eli, a sua nova vizinha que só costuma sair de casa à noite, Oskar encontra alguém com quem pode identificar a sua diferença. Obedecendo de forma muito particular às regras do género, Alfredson oferece-nos um filme ao mesmo tempo sinistro e poético, desconfortável e perturbador. Peca sobretudo quando se desprende da história dos dois jovens e tenta seguir outros caminhos (uma cena gore envolvendo um ataque de gatos, por exemplo, era perfeitamente dispensável), mas quando se centra apenas em Eli e Oskar, mantendo de lado a preocupação com os sustos, e deixando estas personagens desenvolverem a sua relação tão comovente, Deixa-me Entrar consegue ser excelente. E aqueles momentos finais, tão doentiamente encantadores, são dignos de permanecer entre os melhores do ano. Para os mais impressionáveis, fica no entanto o aviso: algumas das cenas não serão certamente muito bonitas de se ver...



Este comentário foi originalmente publicado no Take a Break



João Paulo Costa

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Sexta-feira, Junho 05, 2009

Sábado, Maio 23, 2009

OS FRAGMENTOS DE TRACEY (The Tracey Fragments)

A proposta de partida para este filme canadiano de Bruce McDonald é curiosa: construir uma narrativa a partir de fragmentos da vida de uma personagem, cuja própria estabilidade emocional (e consequente validade do ponto de vista) é desde logo posta em causa por um trauma que a aflige: o desaparecimento do seu irmão mais novo. E enquanto a jovem Tracey Berkowitz (Ellen Page) procura o rapaz, vamos assistindo à degradação (ou fragmentação) da sua mente, que cada vez mais parece dirigir-se para o caos absoluto. O grande desafio de McDonald passava por transportar para o ecrã, através de imagens, o estado de espírito da sua protagonista, e a forma como o fez marca o traço mais distintivo de The Tracey Fragments e também, diga-se, a sua grande fragilidade. É levando ao máximo a ideia do fragmento como peça fundamental para esta construção cinematográfica que o filme é elaborado, o que na prática se traduz por uma imagem composta por uma miríade de outras imagens, como se fossem os estilhaços de um espelho partido, reflectindo cada um deles uma realidade subtilmente diferente. Torna-se portanto fácil apreciar o empreendimento do realizador pela sua coragem em fragmentar de tal forma as imagens, mas a verdade é que aquilo que poderia ser um curioso exercício de estilo numa curta-metragem de 20 minutos, acaba por se tornar altamente cansativo e até arbitrário ao fim de 80. Como se essas imagens sobre imagens, sobre imagens, cuja ideia começa por fazer todo o sentido tendo em conta a sua história e personagens, se alongasse mais do que as possibilidades da sua narrativa, estando lá para se cumprir uma determinada duração, repetindo ideias e temas visuais para além dos limites. Ao fim de certo tempo, o efeito perde a piada, e quando se procura um pouco além da superfície, percebe-se que havia muito pouca uva para tanta parra, especialmente quando o filme começa a procurar o insólito sem motivo aparente, como que apenas para se afirmar à força como um projecto alternativo – aquelas cenas com “a psiquiatra” não convencem... No final, o que sobra digno de registo? A confirmação de que Ellen Page é uma grande actriz e terá um futuro brilhante (que de resto Hard Candy e Juno já deixavam antever), e uns breves instantes de inspiração num projecto meritório mas falhado.




João Paulo Costa

MUDANÇAS

Tendo em conta a falta de actualizações do blog, e a minha colaboração para outros projectos ligadosao cinema (em breve irão surgir novidades a esse respeito), venho anunciar aqui algumas mudanças por estas bandas.

No fundo, nada de particularmente diferente, mas tenciono centrar-me menos nas estreias recentes (coisa que farei noutros espaços), e focar-me mais em outros filmes que me forem encontrando. E talvez também abandone um pouco o formato mais "crítico" que se foi estabelecendo neste espaço ao longo dos tempos, e o transforme mais num bloco de notas cinematográfico. Pode ser que assim, separadas as águas, o CinePt possa estar de novo sujeito a mais frequentes actualizações.

Até já e bons filmes.

João Paulo Costa

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Take - Cinema Magazine

Já se encontra online o novo número da Take que, como podem ver pela capa, destaca o blockbuster de J.J. Abrams, Star Trek, isto sem esquecer outras estreias de ontem, de hoje e de amanhã. Já sabem, é só clicar na imagem e começar a leitura.

João Paulo Costa

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Segunda-feira, Maio 18, 2009

Atol Magazine

A falta de grandes novidades aqui no estaminé, é quebrada não por nova análise a um filme, mas para vos dar a conhecer este projecto para o qual fui convidado a participar. Trata-se de uma revista online cujo conteúdo abrange as mais diversas áreas, sendo que eu irei colaborar ocasionalmente na área do cinema. Mas vale a pena visitar o site e conhecer a Atol e os seus conteúdos. Apareçam.

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Sexta-feira, Maio 08, 2009

SOUTHLAND TALES

Richard Kelly é um caso curioso no panorama do cinema norte-americano dos últimos anos. Deu-se a conhecer ao mundo em 2001, quando a sua pequena obra de estreia teve uma carreia muito discreta nas salas, mas se tornou pouco tempo depois num fenómeno de culto assim que chegou ao mundo do home cinema. Falamos, pois, de Donnie Darko, esse fascinante retrato da complexidade da adolescência mergulhado numa trama de ficção científica envolvendo o fim do mundo e universos paralelos e linhas de continuidade espacio-temporais. De uma assentada, Kelly passou a ser visto como o novo menino bonito do cinema independente, mas ao contrário do protagonista que descobriu, Jake Gyllenhaal (bem como a sua irmã Maggie, recentemente vista em The Dark Knight), que se tornou num nome de peso, Kelly tem tido dificuldades em impôr o seu estilo bastante peculiar numa indústria pouco dada ao risco.

Ora, apenas 5 anos após o seu filme de estreia, Richard Kelly conseguiu dar seguimento à carreira na realização, e o seu segundo trabalho era aguardado com expectativa. Até que, em Maio de 2006, chegou finalmente ao festival de Cannes, e a recção crítica foi unânime: um fracasso de dimensões ainda mais catastróficas do que a história que nos conta no filme. Seguiu-se um complicadíssimo processo de pós-produção que envolveu uma redução da duração da película, e uma batalha para conseguir financiamento suficiente para elaborar alguns efeitos especiais, até que o filme estreou finalmente, mais de um ano depois, nas salas americanas, apenas para ser retirado quase de seguida sem grande alarido. Ainda assim, a opinião generalizada era de que se tratava de um fiaco tão grande que colocaria em risco a própria carreira do realizador.

Ora, passado o alarido e o negativismo em relação a Southland Tales, será que se justificam tantos apupos, e que os mesmos podem mesmo colocar em causa o trabalho meritório passado do seu autor? Bem, depois de visto o filme em DVD (uma vez que não parece haver meio de cá chegar), serei claro a definir a minha posição em relação ao filme: compreendo perfeitamente todas as críticas que lhe apontam, mas a verdade é que no meio de tanto caos narrativo, consegue momentos magníficos de Cinema que nos lembram que está ali alguém que acredita plenamente no filme que nos mostra, e que esse alguém se mantém absolutamente fiel aos seus princípios temáticos e visuais. Mas vamos por partes...

Diz-se que há por ali uma história, em Southland Tales, e eu até acredito. O problema é conseguir encontrá-la no meio de tantas personagens deste universo de dimensões quase altmanescas. Mas a verdade é que obsessões que fizeram de Donnie Darko esse filme tão especial, estão lá todas: o fim do mundo, e uma espécie de fractura na linearidade espacio-temporal, onde poderá estar também a salvação à custa do sacrifício pessoal. Isto é que é ser específico, de filme para filme. A questão é que se Darko era um claro protagonista cujo drama interior se reflectia naqueles com quem se cruzava, em Southland Tales esse protagonista é substituído por uma panóplia de gente e histórias paralelas sem fim. Exceptuando meia-dúzia de personagens, torna-se inclusivé difícil perceber quem é quem neste universo cinematográfico desgovernado. No entanto, a questão é que esse caos mais não é do que uma consequência do universo narrativo que Richard Kelly nos apresenta. Mais uma vez situado num mundo alternativo, estamos em Los Angeles, em 2008, mas numa terra devastada por um atentado terrorista nuclear, que entre outras coisas conduziu o governo á tomada de medidas drásticas: a procura incessante de uma fonte de energia alternativa que acabe com a dependência de petróleo depois da péssima experiência no Iraque, e um domínio total do ciberespaço de forma a controlar todo o tipo acções ilícitas, mesmo quando isso implica a invasão de privacidade total: o big brother elevado à potência máxima. Com o planeta neste estado, não tardam a surgir as facções extremistas à direita e à esquerda, que conspiram contra o abuso do poder. Entre actores, pornógrafos, ex-combatentes no Iraque, astrofisicos e estrelas de cinema, todos terão uma palavra a dizer. No fundo, aquilo que Southland Tales terá mais próximo de um protagonista, são Boxer Santaros (Dwayne “The Rock” Johnson) e Ronald Tavener (Seann William Scott), o primeiro uma estrela de cinema com amnésia (desde que participou numa viagem ao Texas) que escreveu um argumento que retrata de forma realista os acontecimentos catastróficos pelos quais a terra vai passando, e o segundo na pele de um ex-combatente que regressou do Iraque com problemas de personalidade. Isto por si só já deve parecer confuso o suficiente, portanto ficarei por aqui no que a tentar explicar o argumento diz respeito, em primeiro lugar porque não tenho a certeza de ter percebido perfeitamente o que raio se passa ao longo do filme, e em segundo lugar porque... é tudo bem mais complexo do que acabei de descrever.

Assim, apesar das marcas de autor parecerem começar a formar-se com clareza, é também possível encontrar pedaços de influências fortes que vão desde Altman (a pluralidade de personagens) a Lynch (todo o surrealismo acentuado por um momento perto do final em que a mesma Rebekah Del Rio do Club Silencio de Mulholland Drive canta o hino americano), passando por Kubrick e Gilliam (os cenários apocalípticos mergulhados num tom estranhíssimo de comédia negra e quase slapstick) ou por Fellini (onde cada personagem parece competir com a anterior no que à bizarria diz respeito, fazendo do coelho gigante de Donnie Darko a coisa mais normal do universo). Nesse aspecto, o filme funciona de uma forma algo estranha, ou pelo menos fá-lo perfeitamente até aos seus derradeiros minutos, onde parece estender-se em demasia, tentando dar alguma explicação para o que é, admita-se, inexplicável. E é quando se torna numa assumidíssima sátira social que tudo parece estar no lugar, mesmo quando tem de lidar com números musicais e ficção científica... Entre outras coisas, Kelly manda farpas ao extremismo político, à reality tv, ao capitalismo, à obsessão com a exposição, à invasão de privacidade e, de um modo mais geral, ao ser humano incapaz de perceber as consequências dos seus actos no mundo que habita. Que se consiga retirar isto de um filme onde pouco ou nada parece fazer sentido, eis a surpresa.

Tal como as personagens que habitam o filme, tudo aqui é levado ao extremo e cabe ao espectador arranjar ou não a paciência para entrar neste universo. Aqueles que o conseguirem, irão certamente estar mais propensos a retirar de Southland Tales alguns pequenos prazeres que confirmam Kelly como um cineasta de talento que, não desminto, talvez precise de alguma contenção se quiser continuar a fazer filmes – e parece que o seu projecto seguinte, intitulado The Box, com James Marsden, Cameron Diaz e Frank Langella, e baseado num conto de Richard Matheson, é bastante mais mainstream. Mas para já, saúdo sem reservas essa anarquia cinematográfica que, de forma bem inteligente, perspicaz e corrosiva, mais não é do que um espelho nítido do nosso mundo. Se duvidas restarem, aqui em baixo fica um exemplo perfeito disso mesmo: um tema musical fabuloso, All These Things That I've Done, dos The Killers, uma economia de recursos cinematográficos complementada por um belíssimo trabalho de câmara (aproveitando toda a largura do ecrã em scope), a utilização de elementos que de muitas formas simbolizam a cultura popular americana, e temos em poucos minutos a representação de todo um país completamente mergulhado num profundo desencanto. Acham que é coincidência o actor nesta cena ser uma estrela pop americana e ter o rosto parcialmente deformado? Eu não...


Recomendação: vejam em alta resolução. Tem muito melhor aspecto...

Para os que tiverem curiosidade, e pouca ou nenhuma vontade de esperar eternamente até que uma distribuidora se lembre de o estrear em Portugal (já nem tenho esperanças de que chegue às salas, mas pelo menos ao mercado do DVD), pode sempre explorar esta edição a preço bem acessível.

João Paulo Costa

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